Enchentes na região serrana do Rio de Janeiro: o outro lado da “tragédia”

“A República tem vivido de leis pessoais, de reações pessoais, de atos pessoais do Poder Executivo e do Poder Legislativo. […] E a responsabilidade dessa atitude, o hábito de não prever as eventualidades previsíveis do dia de amanhã, tem sido a desgraça, a ruína e a miséria da situação.

(Rui Barbosa. Senado Federal. Rio de Janeiro, DF (Obras Completas de Rui Barbosa. V. 20, t. 1, 1893. p. 176)

Brasil: morte causada pelas enchentes

Nesta foto liberada pelo governo do Rio de Janeiro vê-se a aérea de um deslizamento de terra em Teresópolis, Estado do Rio de Janeiro, Brasil, quarta-feira 12 de janeiro de 2011. chuvas de verão torrenciais rasgou através de montanhas do Estado do Rio, matando pelo menos 140 pessoas em 24 horas, as autoridades brasileiras nesta quarta-feira. (AP Photo Marino Azevedo /, Rio de Janeiro Governo)

As chuvas foram o estopim da desgraça que se abateu sobre a região serrana do Rio de Janeiro, causando devastação em Teresópolis, Nova Friburgo e Itaipava. Entretanto, as chuvas estão longe de ser a principal causa do problema. De fato duas foram as principais causas da tragédia: a primeira, a irresponsabilidade do governo republicano e a segunda: a estupidez do povo.

Pode parecer cruel falar disso num momento tão duro para a população, mas o grande responsável pela tragédia que se abateu sobre o povo foi o próprio povo. Toda pessoa minimamente responsável sabe que se devem evitar os perigos. É por essa razão que se ensina as crianças desde cedo a olharem para os dois lados da rua antes de atravessar. E é pelo mesmo motivo que a televisão alerta diariamente aos jovens: “diga não às drogas”. Ao contrário disso, o povo ignorou o perigo de se construir em áreas de risco e simplesmente fez suas casas e negócios confiando na sorte.

Desastre na Região Serrana

Teresópolis (RJ), 12/01/2011, Chuvas / Enchente – Chuvas fortes causam destruição e mortes na Região Serrana – Na foto: região da Posse, em Teresópolis. Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo

Claro que há os demagogos que dizem que o povo, coitadinho, assim o fez por “falta de condições” de adquirir um lugar melhor. Mas em todos os tempos sempre haverá algo para se colocar a culpa, quando na verdade os culpados são as próprias vítimas da tragédia: o povo.

Ele é culpado por ter acreditado que valeria a pena apostar a própria vida para poder possuir um imóvel. Enfim: entre ter uma propriedade e resguardar a própria vida, o povo acreditou que o imóvel valeria mais e, por isso, se dispôs a morar e trabalhar em locais tão arriscados. Foi uma aposta mal feita.

O povo também é culpado por ter sido passivo. Já que não tinha local adequado para morar e trabalhar, e nem poderia conseguir um; deveria ter pressionado o governo para que providenciasse local digno ao alcance de sua condição financeira. Pelo contrário, o povo escolheu não participar da política e deixou que tudo simplesmente acontecesse. Literalmente o povo caçou sarna para se coçar.

Um dos grandes problemas do brasileiro é não se importar com política. É muito fácil reunir 100 pessoas para ver o jogo do Flamengo X Santos; mas é quase impossível reunir 5 para discutir sobre qualquer assunto realmente importante como moradia, educação e saúde. Como já dizia Platão “Não há nada de errado com aqueles que não gostam de política, só que eles serão governados por quem gosta“. No Brasil, quem gosta de política são os republicanos que ganham muito dinheiro com a desgraça e miséria alheia.

Brazil Flood Deaths

Pessoas ficam por corpos de vítimas de deslizamento de terra após fortes chuvas no bairro do Caleme em Teresópolis, Brasil, quarta-feira 12 de janeiro de 2011. Autoridades do Rio de Janeiro dizem 58 pessoas morreram nos deslizamentos de terra e inundações que se seguiram chuvas torrenciais durante a noite. O prefeito da cidade serrana de Teresópolis, a norte do Rio, disse em uma indicação quarta-feira que 48 pessoas morreram e mais de 1.000 ficaram desabrigadas. (AP Photo Cezar Paulo / Agência O Globo)

Este momento de mortandade seria ideal para falar das reais causas das tragédias no Rio de Janeiro: a irresponsabilidade do governo republicano e a imprudência do povo. Ao invés disso, por comodidade, tanto a mídia quanto os políticos jogam a culpa na chuva como se no Brasil jamais chovesse. E por quê? Porque o povo é contraditório. O povo quer a verdade,mas não vota em político que fala a verdade, nem vê canais de televisão que falem a verdade. Seria um desastre de audiência para Rede Globo se o William Bonner abrisse o jornal Nacional dizendo: “A tragédia no Rio de Janeiro é culpa sua que elegeu políticos irresponsáveis. E é culpa sua que escolheu morar em lugar de risco”. Isso não daria audiência. Pelo contrário, despertaria a raiva do povo e a ira dos políticos. Dessa forma, o povo mudaria o canal para outro que dissesse que o povo é “coitado” e a culpa é da chuva. E claro: os políticos se vingariam da emissora na hora de renovar a concessão. Enfim: falar a verdade não é um bom negócio tanto para a televisão quanto para os políticos. E ambos sabem disso. Por isso, jogam a culpa na chuva e o povo aceita o que é dito como “verdade” porque o povo é tão dissimulado quanto os políticos que ele elege.

Em Nova Friburgo, novo desabamento soterra três bombeiros

RJ – CHUVA/BOMBEIROS/RIO – CIDADES – Estragos causados por deslizamento de terra na Praça do Suspiro, no centro de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, nesta quarta-feira. Subiu para 38 o número de vítimas pelas chuvas em Nova Friburgo (RJ). Com isso, o total de mortes na região serrana foi para 170. Teresópolis segue como a cidade mais afetada, com 114 mortos. Em Petrópolis, 18 pessoas morreram. 12/01/2011 – Foto: MARCOS DE PAULA/AGÊNCIA ESTADO/AE

Só para lembrar, o clima predominante no Brasil é o tropical, cuja definição básica é marcada por calor e chuvas intensas no verão. Chover faz parte da realidade do Brasil, apesar do governo e do povo desprezarem essa parte fundamental do conceito de clima tropical. O Brasil é um país abençoado pelas chuvas, e por isso, possui inúmeros rios, córregos e fontes de água. Realidade diversa da maioria dos países do mundo. Aqui se pode tomar banho todos os dias, lavar roupa e dar-se ao luxo de regar diariamente uma horta doméstica. Aqui tudo cresce e frutifica porque temos a união do calor e das chuvas. Se tivéssemos só o calor sem chuvas, há a probabilidade de que nossas vastas terras não fossem muito diferentes do deserto do Saara. Enfim: a maioria do Brasil seria um deserto estéril.

Enquanto o mundo se preocupa com a falta de água, o Brasil é um país favorecido pelas chuvas e deveria agradecer por ela ainda estar presente em nosso território. Mas ao contrário disso, o povo a despreza. Inclusive o povo das regiões mais secas como o Nordeste. Até lá a chuva promoveu “tragédias” justamente a chuva que é a solução mais barata para o problema da falta de água. Mas o povo, mais uma vez, acreditou que jamais choveria e construiu suas casas na beira do rio ao invés de fazer como os antigos egípcios (4.000 a. C): aproveitar a água das cheias ocasionais para cultivar durante a seca. O resultado foi o mesmo de sempre: a “tragédia” e mais uma vez os políticos e a mídia jogaram a culpa na chuva. Grande Ironia! No Nordeste onde o povo é castigado pela falta de água; o povo, a mídia e os políticos jogaram a culpa na chuva!

O mais incrível das “tragédias” é o que se faz depois que ela ocorre. Ao invés do povo construir suas casas e negócios em locais adequados e o governo adotar medidas preventivas; o governo libera dinheiro para que o povo refaça suas casas no “mesmo lugar”! E todos, comodamente, fingem que estão num país que nunca chove. Ou seja: ninguém aprende nada com as tragédias. É a receita da desgraça para o próximo ano.

Enquanto o povo for imprudente e “experto”, a mídia e os políticos continuarão jogando a culpa de tudo na chuva. Justamente ela que nos dá água, alimento e conforto. E claro: ano após anos, centenas de pessoas morrerão em vão e vários outros milhares ficarão desabrigados e perderão quase tudo que tanto trabalharam para conseguir. É a conseqüência inevitável da imprudência.

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