Dia da Justiça

Justiça
Justiça: porque a mulher com a espada a simboliza?

No Brasil, o dia da justiça é comemorado em 8 de dezembro, mas também é comemorado no dia 8 de janeiro segundo o calendário pagão. Ela foi conhecida na Grécia antiga pelo nome de Thêmis e em Roma pelo nome de Justitia. Thêmis é filha de Urano e de Gaia, é a segunda mulher de Zeus. Foi gerada pelas Moiras junto com Nêmesis, — a deusa da Ética. Não é coincidência. É proposital. E serve para que lembremos também que a Justiça nasceu junto com a Ética e dela é indissociável. Sinal claro, na Mitologia Grega, que a Justiça e a Ética são inseparáveis, apesar dos positivistas de agora bradarem que seja possível uma “justiça separada da ética”.

A Justiça, essa divindade temível, era representada até o sec. XIX como uma mulher em pé, de olhos abertos, e espada em riste. O simbolismo era tão forte que até nas representações cristãs barrocas o padrão se repetia com insistência. Quando muito, havia discrepância apenas quanto ao sexo de quem empunhava a espada e a balança por razões de dogmática cristã.

Deusa Justitia ou Thêmis segundo os antigos gregos
Deusa Justitia ou Thêmis segundo os antigos gregos

Cada símbolo pagão tinha um porquê. O mesmo se dava em relação à deusa Thêmis. A Justiça era representada em pé, jamais sentada porque ela é ação, atitude. Estar sentada significaria sua negação, pois daria impressão de que ela não está pronta para agir diante do que lhe aparece. Portanto, ela estava sempre de pé, com uma perna flexionada para frente e outra levemente para trás, ou seja: prontíssima para se defender e atacar a qualquer sinal de ameça ou de desobediência.

Thêmis não tinha vendas nos olhos. Ela via tudo, ouvia tudo, percebia tudo na mais íntima profundidade. Aliás, ela não tinha nem sobrancelhas, nem cílios, nem pálpebras Ela jamais dormia motivo pelo qual dispensava as pálpebras. Ela enxergava na luz e no escuro, razão porque dispensava os cílios e as sobrancelhas. Thêmis é sempre atenta, sempre ciente, penetra tudo e todos sem engano.

Na imagem original, a espada de Thêmis estava sempre em riste, preparada para golpear imediatamente os que não se adequassem aos ditames da Justiça.

A balança, sempre acima da espada, indicava que a força que ela detinha subordinava-se totalmente às leis universais de equilíbrio ditadas pelo pai Urano e pela mãe Gaia, enfim: pela Sabedoria e pelo Entendimento! E também indica as qualidades da Justiça. De sua mãe Gaia, ela herdara a estabilidade, a solidez e a segurança vitais para a vida organizada e saudável em qualquer sociedade. De seu pai Urano, ela herdara a Força e a Ação indispensáveis para que a Justiça tenha efetividade em qualquer lugar. A Justiça é a mãe das Horas, outras divindades gregas. E não é em vão. Significa abertamente que a Justiça é o fundamento da progressão temporal ordenada em todas as sociedades. Sem a Justiça, tudo, até o tempo, dissolve-se em caos. Os gregos representaram a Deusa Thêmis numa constelação, hoje conhecida como Libra, a mesma do famoso signo zodiacal.

A Justiça vestia-se de branco porque ela era pura. Ela não mostrava suas partes íntimas como outras deusas porque ela era imaculada. Uma espécie de mãe virginal que apesar de ter filhos, permanecia intocada, inviolada. Simbolismo semelhante ao da Santíssima Virgem Cristã.

A representação dessa Deusa tão augusta só mudou no séc. XIX com a predominância da mentalidade positivista. O positivismo acusou os mitos de serem “falsos”, aliás, acusou todas as religiões de serem “falsas” e tentou implantar o império da ciência sobre a “superstição”. Eles entendiam por superstição tudo que não se enquadrava no limitado “método científico”, ainda aceito por muitos como “única forma” de conhecer o mundo. Uma verdadeira viseira de asno para se estudar a realidade. Quem conhece viseira sabe que ela impede o animal de olhar para os lados e de se assustar com a diversidade que há no mundo. Enfim: a viseira impede o asno de descobrir que há muitas coisas fora da área de visão “permitida” pelo dono. O positivismo pregava de modo fanático e insano a “supremacia da ciência”. Tanto que um de seus percussores, Auguste Comte, fundou a “religião da humanidade” colocando literalmente as ciências como “divindades”. É paradoxal ele ter dado o nome de “religião” para algo totalmente irreligioso. Consequentemente, não me admiro de Auguste Comte ter morrido louco.

Como reflexo dessa mentalidade limitada e dessa loucura de época que ainda vigora em vários lugares, os positivistas alemães, a partir do séc. XIX, mudaram a imagem da Justiça para se tornar mais “racional” e “moderna” conforme o pensamento deles. E, ironicamente, deram-lha uma venda, semelhante a da viseira de asno com a qual formularam o “método científico”.

E hoje, irônica e tragicamente, o Brasil tem uma imagem da deusa Justiça fiel ao monstro que eles criaram.

A Justiça segundo os neopositivistas brasileiros
A Justiça segundo os neopositivistas brasileiros

Temos uma justiça cegada de propósito com uma venda nos olhos. Uma justiça incapaz de penetrar fundo nas coisas. Em outras palavras: superficial e, consequentemente, fácil de ludibriar. Uma justiça sentada, enfim: passiva, sem ação, lenta, incapaz de agir rápido diante dos fatos que lhe aparecem. Uma justiça com a espada abaixada, ou seja: uma justiça sem poder, sem efetividade, sem capacidade de impor suas decisões. Uma justiça de seios à mostra, disponível a qualquer aventureiro que queira usá-la para finalidades indignas, servis

E mais. É a imagem de uma justiça sem forma humana. Enfim: estranha aos homens, afastada deles, incompreensível e insensível aos seres humanos comuns. Uma imagem de formas desproporcionais, onde curvas e retas lembram mais um golem que um ser humano. Enfim: uma Justiça desarmônica e destoada do tempo e de seu significado. Uma justiça desfigurada por uma razão que se julgou acima da Divindade. Enfim: uma justiça que esqueceu de suas fontes, de sua história e do que ela devia representar.

E, o pior: uma justiça que perdeu a balança! Que perdeu sua alma, que perdeu a conexão vital e indispensável com a Sabedoria e o Entendimento, com a Ação e a Estabilidade, os pilares máximos que deveriam sustentá-la e guiar todos os seus passos.

Portanto, que o dia 8 de Janeiro, Dia da Deusa Thêmis, dia da Deusa Justitia, seja o dia que cada um de nós, servidores da Justiça, saiba resgatar o valor que ela representa. Valor muito além das viseiras positivistas. E, consequentemente, que cada um de nós continue a luta para restaurar a verdadeira Justiça: com balança, de pé, de espada em riste e de olhar atento!

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