Brasileiro: a nova língua.

Ignorância

No Brasil, a ignorância linguística é oficial.

O Brasil foi estado de Portugal até 1822. Depois, tornou-se independente. Entretanto, em relação à língua, manteve-se vinculado à velha terra. Seria natural que nosso país continuasse a usar a língua de Camões, apesar da independência política. Mas, a independência também atingiu a língua.

Toda essa reviravolta começou com a “presidenta” do Brasil, Dilma Rousseff. Não existe a palavra “presidenta” na língua portuguesa. Ela é própria do brasileiro. E qual o por quê? Pelo mesmo motivo que não se escreve “estudanta”, “ignoranta” e “adolescenta”. Na língua portuguesa, tanto faz o gênero, sempre se escreve estudante, ignorante, adolescente, e, também, presidente.

Apesar disso, a Academia Brasileira de Letras adicionou a palavra “presidenta” ao Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa do Brasil. Com fundamento nesse argumento e de que a língua é mutável e deve-se adequar ao falante, muitos linguistas brasileiros têm aceitado a grafia da palavra como correta. Outros, mais apegados ao padrão culto, denunciam o uso abusivo.

Qual a razão de tanta divergência? Simples: a política. Ela é mãe de todas as línguas. Portugal e Espanha já partilharam uma língua comum: o galego-português. A independência e a separação política dos dois países também afetou a língua. Resultado: o espanhol e o português. Duas línguas diferentes, apesar de parecidas. Quem já prestou vestibular e optou pelo espanhol pensando que se daria bem, sabe o que quero dizer. A língua de Cervantes é cheia de manhas e pega desprevenido quem não a conhece.

O Brasil sinaliza ter escolhido o caminho da independência linguística. A “presidenta” publicou o decreto 12.605 de 03/04/2012. Ele normatiza a escrita dos gêneros das profissões e foi além: estabeleceu regra para flexão dos gêneros que difere da usada pela língua portuguesa culta. Assim diz: “As instituições de ensino públicas e privadas expedirão diplomas e certificados com a flexão de gênero correspondente ao sexo da pessoa diplomada, ao designar a profissão e o grau obtido.”

A norma foi criada para reparar a “injustiça da língua” em relação às mulheres. O argumento principal: muitas profissões possuem apenas uma forma “masculina”. Portanto, deveriam ter uma forma feminina para não discriminar às mulheres. Daí surgiu o decreto. Entretanto, essas pessoas esqueceram-se de que muitas profissões possuem uma forma comum para os dois gêneros, o que torna a norma desnecessária.

Outro aspecto passou batido por muitos. O decreto não vale só para as mulheres, vale para os homens também. Então, no brasileiro, um homem pode exigir que em seu diploma conste a profissão de “jornalisto”, já que Jornalista parece coisa de mulher, assim como dentista. Por causa do decreto, tornaram-se corretas as formas “dentisto”, “cardiologisto”, “psiquiatro” quando o profissional for do sexo masculino. Da mesma maneira, a mulher pode exigir ser chamada de “oficiala”, “policiala” e “agenta de segurança”.

Perceberam a confusão? Perdoem este “articulisto”, mas essa é a redação “oficiala” do Brasil.

Isso tudo pode parecer palhaçada para os que levam o português a sério. Mas é assim que se nasce uma língua. Primeiro diverge-se da língua mãe em pontos aparentemente sem nenhuma importância, depois, coisas cediças, como os gêneros das palavras, tomam nova dimensão. E, com o tempo, as diferenças se tornam tão grandes que só resta reconhecer a existência da nova língua.

Só falta a “presidenta” do Brasil baixar um decreto sobre a conjugação de verbos no brasileiro. Faço-lhe até uma sugestão já que a moda é adequar a língua ao falante:

Conjugação brasileira de verbos

Pessoa

Verbos no presente do indicativo

estar

ser

amar

vender

partir

eu

amo

vendo

parto

ocê

é

ama

vende

parte

ele

é

ama

vende

parte

nóis

são

ama

vende

parte

ocês

tão

são

ama

vende

parte

eles

tão

são

ama

vende

parte

 

Brincadeiras à parte, a língua brasileira tende a surgir com vocabulário e flexão de gênero próprios, diferentes da língua portuguesa. Palavras chulas e construções verbo-nominais grotescas poderão se tornar oficiais no futuro. E o que era uma língua de gente sem educação poderá se tornar oficial.

Como citar este texto?

Nas referências bibliográficas:

MARQUES. Sebastião Fabiano Pinto.Brasileiro: a nova língua. (2012). Disponível em: <https://monarquia.net/brasileiro-a-nova-lingua/ ‎>. Acesso em 5/1/2015.

No corpo do texto:

(MARQUES, 2012)

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